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  • Homems de porta a porta

    Posted on janeiro 27th, 2007 admin No comments

    Giselle Vanessa Carvalho

    Homens despem-se de preconceitos, aposentam de vez as enciclopédias e saem sem medo às ruas tocando campainha para vender cosméticos, maquiagens, lingerie, perfume, entre outras coisas que permeiavam apenas o universo feminino. É mais uma mostra de que quando o assunto é mercado de trabalho a tal guerra dos sexos dá lugar à “mistura” dos sexos. Homens vão ao salão de beleza, assumem o fogão, vestem rosa. Mulheres dirigem caminhões, aposentam frigideiras, usam macacão de mecânico. Troca e compartilhamento de papéis que têm um único objetivo: sobreviver à voracidade do mercado. Para garantir complementação ao salário, aproveitar a flexibilidade de horários sem prejuízo a outras atividades, 1,5 milhão de homens e mulheres brasileiros fazem da venda porta a porta a alternativa para aumentar a renda. E não por acaso esse mercado tem batido recordes contínuos desde 1999 e há perspectiva de alta para 2007. Uma empresa de perfumes calcula ganho médio de R$ 2.610 com a venda de três unidades por dia. Renda extra que pode ser obtida na comercialização durante intervalos do emprego formal, na faculdade ou mesmo entre amigos. E os ganhos podem ser ainda maiores. Uma firma de alimento funcional promete rendimentos de até 18,9 mil por mês. A margem de lucro vai de 20% a 100%. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), o rendimento médio para iniciantes é de R$ 700 mensais. A entidade ainda não tem em números a quantidade de homens que já atuam no ramo de venda direta em áreas até então exclusivamente femininas, como os cosméticos, perfumes e maquiagens, que representam 90% dos negócios do setor. Mas a participação masculina já chega a percentual suficiente para que tenha notório desempenho em empresas de lingerie, produtos plásticos, higiene, cosméticos e perfumaria, acessórios, utilidades domésticas, moda, calçados, relógios, jóias, brinquedos, artigos de cama, mesa e banho, além de artigos de decoração.

    Catálogos – A acirrada disputa no mercado de trabalho chega agora aos catálogos de produtos. Revistas que deixam de estar no território antes exclusivo das bolsas femininas para ocupar também as pastas e carteiras masculinas. A divisão de sexos parece mesmo estar com os dias contados. Há menos de um ano como revendedor de cosméticos, maquiagem, utilidades domésticas, lingeries, perfumes, bijuterias e produtos naturais, Marcos Roberto da Silva, 23, consegue acrescentar cerca de R$ 500 por mês à renda de seu trabalho formal. A carteira de clientes tem 180 pessoas, entre homens e mulheres. O bom resultado fez com que Marcos desenvolvesse, inclusive, estratégias de marketing para fidelizar a clientela. Dependendo do valor da compra a freguesa ganha um batom. Também se tornou um leitor voraz de informações sobre uso e tendências dos produtos que vende. A disponibilidade de orientação do uso adequado e opiniões sobre cada produto também fizeram dele o vendedor preferencial na empresa onde trabalha, com os amigos da cidade de Guapó e do distrito de Posselândia, para onde viaja aos finais de semana. A naturalidade com que Marcos assumiu a atuação como vendedor porta a porta conquistou até mesmo o público masculino. Segundo ele, os homens sentem-se mais à vontade para comprar cremes para os pés, mãos, perfumes e desodorantes quando o vendedor assume que usa e conhece os benefícios do produto. “Tenho clientes homens que usam até Renew para prevenir rugas. Não tenho vergonha de dizer para todo mundo que se acabou a maquiagem, se o Renew está no fim, se quer um perfume novo, eu vendo. E é essa minha segurança que afasta qualquer tipo de preconceito”, comenta Marcos.

    Brasil é quarto em ranking mundial
    Números da World Federation of Direct Selling Associations (WFDSA) mostram que o volume de negócios de venda direta no mundo alcançou US$ 97 bilhões em 2004. US$ 3,9 bilhões desse montante veio do Brasil. O que colocou o País na quarta posição no ranking mundial das vendas diretas. O aumento da vaidade masculina, aliado à simplicidade do sistema de compra e venda, foi um dos atrativos para o aposentado Francisco Flor Sobrinho, 63, que há quatro meses auxilia a esposa nas vendas. Juntos complementam a renda da família em média com R$ 500 por mês. Em apenas 120 dias ele conseguiu fidelizar 20 clientes. Para ele, as vantagens são a possibilidade de trabalhar em horários flexíveis, o ganho conforme a dedicação e o atendimento personalizado. Já o estudante Thiago Miguel de Souza, 25, optou por um mix diversificado de produtos para ter uma ampla carteira de clientes. Escolheu Hermes, Payot, Bella, Dulloren e Contém 1g para atender às necessidades dos familiares, colegas de trabalho e de faculdade, além dos clientes que conquistou no popular boca a boca.

    A estratégia deu tão certo que Thiago consegue acrescentar cerca de 30% à renda mensal apenas anotando e enviando pedidos de pessoas que compõem seu ciclo de convívio. Perfumes e maquiagens respondem por mais de 60% dos produtos comercializados por eles. Assim como Francisco e Thiago, outros 55 milhões de vendedores em 60 países e de 1,5 milhão de brasileiros também optaram pelas vendas de porta a porta. Pessoas que fazem com que o setor responda por cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Graças a estes vendedores, apenas no primeiro trimestre deste ano a venda direta movimentou R$ 2,9 bilhões. Aumento de 16% em relação ao mesmo período do ano passado.

    Mercado registra alta no semestre
    De janeiro a março foram comercializados quase 270 milhões de itens. O número de revendedores ativos cresceu 2,2% no primeiro semestre de 2006 na comparação com igual período de 2005. Nos primeiros seis meses do ano foram vendidas 564 milhões de unidades ante 515 milhões de unidades em igual período do ano passado. De acordo com o consultor de Recursos Humanos Roberto Tavares de Rezende, o setor sustenta série histórica de crescimento porque está diretamente relacionado ao alto índice de desemprego e aos baixos salários pagos no Brasil. “É um sistema que oferece trabalho para os sem emprego. Também produz profissionais diferenciados, que se caracterizam pelo bom relacionamento com os clientes.” Rezende avalia que a venda porta a porta pode servir como experiência profissional nesse ramo de atuação. “Vendedores de produtos em catálogos, com vasta carteira de clientes, podem sim ser aproveitados pelo mercado formal, inclusive na área do produto que vende, cosmético, por exemplo.” Neste segmento, há oportunidade de crescimento mesmo dentro das empresas de venda direta. “Pode-se passar de revendedor a gerente de setor. Vale muito a pena se empenhar na venda direta, assim como em qualquer outro tipo de emprego.”

    Fonte: Diário da Manhã – GO, 20/09/2006, Economia, 14

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